segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Desenvolvimento, indústria e emprego


 
 Por Clemente Ganz Lúcio*
A produção social do bem-estar, da qualidade de vida e do equilíbrio ambiental no Brasil depende muito da atividade industrial: da ampliação da capacidade de produção, para atender à demanda interna e participar da pauta exportadora; da agregação de valor; do desenvolvimento de processos e produtos com alta eficiência energética, baixas emissões de carbono, entre outros atributos relevantes.

As dificuldades que a indústria enfrenta não são simples de ser superadas. Exigem uma política econômica de apoio ao desenvolvimento do setor, com câmbio que permita a exportação e iniba as importações espúrias; crédito com juros decentes; financiamento de longo prazo; simplificação tributária; investimento em infraestrutura, entre outros. É necessária também uma política industrial que incentive a inovação tecnológica, a criação de produtos etc.

Uma indústria forte deve ser eixo de um projeto de país, mobilizado por uma nação capaz de afirmar seu rumo e conduzi-lo. Um dos objetivos desse eixo estratégico deve ser a geração de empregos que, incorporando novas tecnologias, possam difundir, nos processos de produção, a inovação para todos os setores. O incremento da produtividade aumenta a capacidade produtiva, o volume produzido, o valor agregado à produção, bem como abre espaço para uma repartição desses resultados de maneira que sejam enfrentadas e superadas as desigualdades existentes. Devemos ter claro que a superação das desigualdades e da pobreza depende também do crescimento econômico e este, da atividade industrial forte que se amplia.

O comportamento do emprego na indústria é um indicador da gravidade da situação no setor. Os dados da Pesquisa Mensal de Emprego e Salário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam o tamanho do problema. Nos primeiros seis meses do ano, o emprego industrial caiu 5,2%. Se comparado ao mesmo período do ano passado, a queda é de 6,3% em termos de pessoal ocupado. Essa redução repercute sobre o volume de horas pagas, que, por sua vez, diminuiu 5,8% no semestre e 7,1% na folha de pagamento real.

O resultado é observado nos 18 setores pesquisados. Máquinas e aparelhos eletroeletrônicos, produtos de metal e meios de transporte são os mais afetados, com quedas entre 11% e 14%. Os dados já permitem afirmar que, pelo quarto ano consecutivo, haverá redução do emprego industrial (houve queda de 1,4%, em 2012, 1,1%, em 2013, e de 3,2% em 2014) talvez superior a 4%. Os reflexos desses resultados para toda a economia são dramáticos.

Não há nenhuma solução fácil e, muito menos, mágica. A transição para o crescimento, em um contexto internacional extremamente adverso, com grandes dificuldades internas, exige ampla capacidade de mobilização das forças econômicas e políticas para iniciativas transformadoras da situação atual. É preciso construir convergências, o que necessariamente contrariará interesses. Os conflitos no interior da esfera produtiva, assim como os conflitos entre a inciativa de investimento na produção e o rentismo, são significativos e complexos.

A saída é política e pública. Política porque exige mobilizar e articular as forças sociais para a construção das saídas. Pública porque requer que esse movimento esteja sustentado no interesse geral da nação, na capacidade de participação dos atores sociais, no uso e fortalecimento de instituições que se renovam ao enfrentar a crise, no insubstituível espaço democrático, na qualidade do debate público e em vigoroso esforço coletivo para fazer escolhas orientadas pelo bem comum, pela promoção do bem-estar social e pela qualidade de vida para todos.

*Clemente Ganz Lúcio é Sociólogo, diretor técnico do DIEESE e membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Nenhum comentário:

Postar um comentário